quarta-feira, 9 de setembro de 2009

DOMINATRIX capitulo 16


























UM BREVE RÉQUIEN PARA UM POSSÍVEL SURTO SEM GLAMOUR, LIGEIRAMENTE ÓBVIO OU NÃO... (QUEM SABE...)



Depressão aguda!


Blues, morangos, chocolates, marlboros, Nina Simone, uísque, duas bolas de haxixe, três gramas de cocaína, uma rola eventual, cabeça cheia de pensamentos tortos, perdidos, nebulosos, ânsia de morrer (nem sempre de suicídio...) vontade de sumir, choro engasgado, garganta seca, peito apertado, lata de cerveja esquentando na mesa de centro, livro Paul Verlaine jogado no chão na página 56...


Não dá para dizer se Aline estava “bem ou mal". Isso nem vem ao caso. Juízo de valor desnecessário... Vamos aos fatos; Ela pensava na vida e em todos os últimos acontecimentos.



Lembrou-se de todos os últimos casos e descasos amorosos que tinha passado. Todas as últimas roubadas que havia se metido e tudo que sempre o amigo Roberto dizia. Caio... Acreditava que aquilo poderia ser algo de diferente em sua vida. Achava o cara no mínimo, 'autêntico “.



Descobriu que era um puta de um vala comum e dessa vez foi de fuder... Simplesmente não acreditava que tinha sido novamente enganada, que novamente estava à beira de mais uma desilusão amorosa. Tudo de novo; "Puta que pariu" - Gritou para si mesma. Estava completamente perdida. Não tinha a menor idéia do que rolava, porra nenhuma.



No entanto não era uma noite que Aline queria pensar. Naquela noite ela pegou a metade restante da garrafa de uísque e com mais quatro comprimidos de Lexotan resolveu a questão.



Não se sabe ao certo as conseqüências daquele sono subseqüente...

domingo, 30 de agosto de 2009

DOMINATRIX capitulo 15



ALINE NO ÚLTIMO ESTROFE DE UM POEMA MAL RABISCADO E A FÁBULA DO CACAU ALUCINÓGENO...


Os dias se arrastavam. Minutos duravam séculos e as horas eram torturantes. Assim estavam os dias de Aline.



Foram dezenas de telefonemas não atendidos, e-mails não respondidos, torpedos enviados por celular não calibrado, já que os tais não atingiam nunca o alvo desejado... Nada. Caio simplesmente sumiu. Raiva; Em meio a isso tudo ressonava a última conversa com Roberto e pairava o pânico dele vir a ter razão novamente. Tudo indicava que sim... De fato as férias, compromissos, sabe lá o quê da mulher do garoto haviam acabado. Como previsto por Roberto, de imediato o carinha saiu correndo para o colo da mulher.



Provavelmente para entregar-se sem a menor resistência à vida cômoda que levava ao lado da Balzaca. Talvez com medo do sentimento que conseguiu despertar em uma mulher como Aline... Que diabos tava acontecendo?!?


Não vinha a resposta. No lugar delas, galopavam ansiedade, stress, paranóia, tristeza, depressão... Não deu! Aline não conseguiu se segurar. Aproveitou-se de ser sexta-feira, de saber onde tocava a banda de Caio, pegou seu Fiat Stilo e rasgou com ele rumo a Out’s, na Rua Augusta onde tocava a Banda do garoto.



Como desejava, chegou no final do show e percebeu que Caio não estava acompanhado. Foi até ele e Caio empalideceu. Todo sem jeito beijou-lhe o rosto e Aline estranhou. Praticamente arrastou-lhe para conversarem. Resoluto ele foi. O que ele disse na verdade ela já sabia. Pois bem...


O garoto foi pra lá de previsível. Contou-lhe que o casamento estava ruindo, mas que o momento não era adequado para a ruptura que ele julgava necessária para que ele e Aline pudessem prosseguir no lance deles. Colocou em questão todas as suas necessidades e toda a dependência que tinha da mulher. Falou sobre a viabilidade que ela dava à banda, dos contatos, de tudo que ele colocaria em risco num momento como aqueles em que segundo ele, 'tudo estava prestes a acontecer..." Em momento algum pensou, nem quis ouvir Aline. Após todo aquele show de clichês, ela também nem fez mais tanta questão de ouvir mais nada.


Claro que rolou um “Depois a gente se liga e falamos melhor..." Mas ela não tava mais nem aí pra absolutamente porra nenhuma. Deu mais uma tragada em seu marlboro, um tchau para Caio e foi para o estacionamento em busca de seu Fiat Stilo. Saiu pela Avenida Paulista e ficou sem rumo até encontrar o primeiro posto 24 horas com uma lojinha de conveniência.


Naquela noite não comprou sua costumeira garrafa de Buchanas. Rendeu-se aos encantos de uma boa caixa de bombons vagabundos recheados de licor de gosto duvidoso...

sexta-feira, 12 de junho de 2009

DOMINATRIX: CAPITULO 14
















A SENTENÇA TUAREG; ALINE DE PATINS NA BEIRA DE UM PENHASCO OUVINDO UM SOM DO CHARLIE CRISTIAN...


Desfilava altiva e poderosa com seu Fiat Stilo, pela região da Estação Da Luz e toda cracolandia se viu iluminada pelo brilho de nossa diva. Mas nada disso fazia com que Aline ficasse menos puta de raiva. Era assim todas as vezes que marcava de encontrar com Roberto:
“Alô!”
“Oi... Nossa que barulhão! Abaixa essa merda Beto!”
“Olha o respeito mulher... Esse é o todo poderoso Humble Pie ao vivo no Filmore East...”
“Ta, mas agora eu quero falar com todo poderoso Betão, pode ser?”
Rindo ele perguntou:
“Mas a que devo a honra da lembrança de minha podre existência, minha linda musa...”
“Preciso falar com você, gato...”
“Ou seja,; Deve-se a mais uma caralhada de merda que você andou se metendo...”
Ela riu:
“Vai se fuder, Beto! Então... Te pego lá na Avenida Paulista, em frente ao Masp as 22:00hs ta bom...”
“Nem fudendo! Seguinte nega; Pego meu trem aqui no Ipiranga as 22:00hs e lá pelas 23:30 você me pega lá no Tupelo, aquele bar que eu fico lá na rua Mauá, ta ligada?”
“Ah não Beto! Puta que pariu, meu! Eu não acredito que você vai me fazer andar naquele inferno de novo... Quando é que você vai criar vergonha nessa cara e parar de brincar de Lou Reed?!
“Nêga; Em primeiro lugar esse tipo de “vergonha” que você diz, não tenho, não quero ter jamais e não tomarei nunca, nem com vódica russa! Segundo; O Lou Reed mora em Nova Iorque, ta milionário e jamais vai tomar cerveja no Tupelo, na Rua Mauá. Ele é o Lou Reed e não precisa passar por nada disso. Mas também duvido que ele consiga “Brincar de Roberto” por cinco minutos...”
“Ah ta Beto... Disso, o Lou Reed precisa?”
“Do que ele precisa eu não tenho a menor idéia. Não sei. Só sei que preciso desligar esse telefone imediatamente porque me deu uma puta vontade de cagar e a merda já ta batendo na porta do cu!”
“AI BETO SEU NOJENTOOOOOOOOO!!!!”
Ele gargalhou:
“Beijo Nega... Te amo.”
“Outro, gato. E vê se limpa essa bunda, hein!!”
“Lavarei com mangueirinha só pra você...”
Ela explodiu de rir, deu tchau e desligou o telefone liberando o amigo para cagar. Enquanto dirigia pelo infernão da boca do lixo paulistana tentou se animar com a lembrança do telefonema dado ao amigo durante à tarde, mas quando pensou na vida do mesmo enfureceu-se como sempre. Roberto...
Mesmo conhecendo os caras mais sacados e descolados de São Paulo, as melhores cabeças, vindas das mais tradicionais e ricas famílias paulistanas e toda ótima formação propiciada a estes, juntando todos, Aline jamais conseguiu encontrar um que tivesse sequer 10 % da cultura e da formação intelectual do amigo Beto. Disparado um dos homens mais inteligentes que ela conhecia. Um sujeito nascido, criado, rodado e vivido na periferia que falava quatro idiomas com extrema fluência sem jamais ter estudado nenhum deles. Profundo conhecedor literário, fã de Proust, Bukowski, Joyce, Byron, Zola, Pasolini, Rimbaud... Amava os quadros de Bosch, Manet e Goya tanto quanto os solos de guitarra de Joe Walsh. Entusiasta de Truffaut, Tarkowski, Godard e Robert Rossen. Escritor nato; Livro pronto, elogiado pelos poucos fodões que ele permitiu conhecer, o que fazia Roberto?
Trabalhava como entregador de frios num frigorífico de seu bairro...
De acordo com a visão que Aline tinha da vida, isso era desperdício de talento. Segundo Roberto, nada a ver; Apenas necessidade de pagar as contas e suas cervejas e cigarros. Não desperdiçava talento porque dizia que absorvia absolutamente todos os contrastes e que o único problema eram as dores nas costas que passavam logo após o primeiro gole de cerveja pós-trampo... Ela ficava puta! Queria ver o amigo bem. Enchia o saco para ele voltar a trampar no mercado publicitário onde havia feito uns frelas, mas... NADA! Ele não tava nem aí...
Chegou em frente ao tal Bar Tupelo. Viu o amigo, todo bêbado, falando alto, expansivo, lindo, com seus belos cabelos pretos cumpridos, esvoaçantes em meio a todos os tipos mais desqualificados daquele lugar. Parou o carro e buzinou. Roberto fez um sinal para que espera-se. Ele pagou a conta, cumprimentou o bar todo, entrou no carro de Aline, beijou-a com ternura e partiram. Ele puxou a conversa:
“Diga Nega... Em que tu te meteste dessa vez...”
“Coloca o cinto que a história é longa Beto...”
Ele colocou o cinto e eles partiram pela noite. Aline passou absolutamente tudo ao amigo. Desde a profundidade da paixão que tava rolando, da febre entre ambos, até detalhes cotidianos como o fato de ter pagado estacionamento para o carro do sujeito, emprestado grana para o garoto sem ter recebido nada, milhares de telefonemas que ele fez de sua casa e tal... Falou que não tirava o garoto da cabeça e que de uma hora pra outra ele com surgiu uns assuntos estranhos relacionados a um tal “relacionamento aberto” que ele afirmava ter com a uma mulher mais, velha, mais bem relacionada e mais rica. Falou por quase uma hora e para sua surpresa, não foi interrompida uma vez pelo amigo. Estranhou.
Roberto adorava falar pelos cotovelos. Ela até se irritava às vezes com isso. Mas daquela vez ele ouviu mudo e permaneceu mudo no carro. Quando ela se irritou com o silêncio dele, teve como resposta o seguinte:
“Vamos até a Mercearia São Pedro tomar umas. Lá a gente se fala.” Feito. Pediram a primeira cerveja, Roberto tomou um gole, olhou para Aline e mandou:
“Você vai se fuder de novo. Esse moleque jamais vai largar absolutamente nada disso para ficar com ninguém, primeiro porque a situação dele é muito cômoda. Segundo porque não acredito em porra de relacionamento aberto nenhum... Você sabe que isso na pratica é de fuder. E por último e principalmente; Porque ele não quer. Nunca vai querer. Ta na febre como você, mas ta pesando os prós e os contras de maneira fria, coisa que gente como nós jamais conseguirá fazer. Não afirmarei aqui que o cara é um filho da puta porque eu não o conheço. Mas ele é bem folgado, descolou um mulherão, ta vendo o que despertou nessa mulher e agora que ta vendo o castelinho de areia dele ir para o espaço, ta se cagando de medo. Bem... Você vai fazer o que quiser como sempre acontece, Aline. Só vou te falar pra você tomar cuidado nêga... Esse tombo aí não é de brincadeira não...”
E então quem ficou muda foi Aline. Olhou para o amigo e não conseguia falar nada. Roberto percebeu. Levantou-se da mesa, beijou-lhe a testa deixou uma nota de vinte em baixo da garrafa de cerveja e foi embora. Não havia mais clima pra encheção de cara e sacou que agora era hora de Aline pensar sozinha. Deu as costas para a mesa que ela estava e saiu sem olhar para trás porque se o fizesse, sabia que ia colocar a amiga no colo como sempre fazia, mas agora não podia. Sentiu que Aline precisava desse confronto consigo mesma. Deu um sinal para um táxi e sumiu.
Na mercearia, Aline pegou a nota de vinte que o amigo deixou, comprou um livro do Byron, pediu uma vódica pura e começou a ler com certo prazer...

DOMINATRIX : Capitulo 13































ALINE AND DRIVE IN SATURDAY; A FÁBULA DO RISOTO DE CAMARÃO




Lavaram aquele camarão, nus e juntinhos.
Caio abraçava Aline por trás e a beijava com gosto na nuca, nas costas na orelha... Ela retribui enchendo-lhe a boca com sua língua e enquanto aguardavam pelo cozimento da coisa, beijaram-se num malho pra lá de Marc Bolan. Línguas entrelaçadas, corpos quentes, grudados de um suor que purifica a alma de quem acredita nisso e também de quem não acredita. Afinal de contos um malho como aqueles é santo...
Pararam para escorrer o lance e guardar o caldo do cozido. Cebola picadinha, dente de alho esmagado, salsa e pimenta do reino; Tomate juntado aos pedaços prontos para serem desmanchados junto ao caldo separado e mais quinze minutos de fogo até dar o ponto para tudo ser passado na peneira. Quinze minutos que bastaram para um transa insana de gozo mútuo em meio a panelas, temperos, talheres, copos sujos ao som de David Bowie em transe com Alladin Sane. E o molho ficou pronto.
Na mesa o arroz foi devidamente enfeitado com o molho e o ótimo bourdoux para acompanhar um almoço paradisíaco. Sentaram-se para degustar o fino prato quando Caio quebrou o silêncio:
“Tu é possessiva?”
“Como é que é, Nêgo?”
“Tu Aline... Tu é possessiva?”
“Geralmente não. Sou até libertária por demais. Mas também não sou muito a favor de “socialismo sexual” com bofe meu, não... Porque?”
“Porque o quê?”
“Porque você me perguntou isso, Caio?”
“Oras minha preta, tu sabe que sou casado...”
“Um casamento aberto, você me disse...”
“Sim, mas é daí?”
“Daí o que Caio? Ta surtando?”
“E daí que é aberto? Tu crê nisso??”
Ela aposentou o talher indignada e o olhou com força:
“Porra Nêgo... Quem tem esse tipo de relação é você. Eu não tenho que acreditar nem desacreditar de nada... Qual é gato? Ta com medo do que?”
“Nada mulher... Perguntei bestamente...”
Silêncio. E esse permaneceu até o final do almoço que já não mais se sabia se era paradisíaco ou sacal. Fato é que pintou um clima, uma dúvida durante aquela saborosa refeição. Porque diachos o garoto havia perguntado aquilo? Aline roia-se por dentro. Depois da primeira transa separaram-se por dois dias. Há três, estavam praticamente entocados dentro do apartamento dos jardins. Transaram alucinadamente, curtiram os corpos, os respectivos gostos das bocas, o roçar de todos os pêlos, dividiram escova de dentes e o caralho a quatro. Alienaram-se de absolutamente tudo. Não tinha mais a banda para o garotão nem agência publicitária nenhuma para Aline.
Durante aqueles dias o mundo era apenas os dois e aquele apartamento. E quando tudo parecia normal, uma pergunta ficou no ar meio que sem resposta. Até porque Aline não tinha a menor idéia do que responder. Jamais havia pensado no assunto. E nem em seus piores delírios, imaginava que teria que pensar numa situação daquelas. Ficou chateada, terminou de comer, tirou seu prato e deixou Caio na mesa. Foi até a sala, puxou um livro do Thomas Mann e passou a ler.
Durante aquela tarde toda não se ouviu mais a voz de Aline...

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Interrompo a novela brevemente por um assunto de meu coração...



Meu amigo Fabio Brum teve um contratempo, deixou a todos bastante preocupados mas felizmente passa bem. Logo mais voltará a arrancar fogo de sua impecável Telecaster. Ao logo de todo o processo me lembrei desse texto que foi publicado em uma revista mineira em 2007. Fala sobre Little Walter mas a idéia era dedicar a matéria ao meu amigo guitarreiro e homenagea-lo. O Resultado taí embaixo. Por essas linhas, entenderão porque o amigo ja está firme e forte novamente.


Um copo de cerveja a ti, Fabio Brum!













LITTLE WALTER, FABIO BRUM E MUNDO MARAVILHOSO DOS DEUSES PAGÃOS.
Bluesman no Brasil só conheço um; Fábio Brum. O resto é datilógrafo de guitarra, contador de causo ou cuspidor de gaita. E porque afirmo isso com toda essa certeza e com essa convicção de fazer inveja aos sérios jornalistas que escrevem sobre política em suas muito bem pagas colunas? Simples...Há um tempo atrás li numa ótima revista gringa (Que preciso te devolver Raquel. Em breve farei...) uma entrevista com Jimmy Witherspoon. Para quem não sabe, trata-se de um dos maiores cantores de blues da região do delta do Mississipi. Um homem que dedicou sua vida às raízes da verdadeira cultura americana. Cultura que passa bem longe da suntuosidade da Casa Branca. A garota que o entrevistava perguntou porque ele jamais quis aprender tocar uma nota de qualquer instrumento e o mestre respondeu o seguinte:“... Oras, tocar blues é fácil. Qualquer um pode tocar. Agora eu quero ver nego cantar isso... Interpretar um Blues como se deve. Aí quero ver...”Em tese é isso. Qualquer Zé Roela pode comprar uma guitarra fodona, aprender uns acordes e sair por aí perdido com pirotecnias e malabarismos virtuosos se dizendo tocador de blues ou que, “compôs” um blues. Enganará alguns babacas, conseguirá uma babação de ovo de outros tantos, será super star do boteco classe média tocando todas as quintas, mas jamais chegará perto da essência da coisa por uma simples razão; Não tem paixão.Porque Blues é algo que vai além da música. É um estado supremo, divino que extrapola tudo isso. É o veneno que cura a dor. E para entender isso tem que ter sentimento. Precisa conhecer o mundo, a vida, os guetos, os pardieiros, o amor e as dores do mesmo. Precisa saber das benesses que podem existir num vômito em um banheiro sujo na alta madrugada de um duvidoso boteco, de uma improvável cidade qualquer. Um lugar que só existe para aqueles que sabem apreciar a última gota da garrafa de uísque comprado a parcas moedas.Antes que me falem, adianto-me em dizer que isso não é uma via de regra. No universo do blues elas não existem. Um grande blues só pode ser tocado por aqueles que vivem na exceção da vida. Entendam como quiserem. Fato é que meu amigo Fábio, até hoje, nos meus jovens 35 anos de vida, além de ser um puta guitarrista, foi o único Bluesman que encontrei porque seu coração filtra um sangue composto por tudo isso que relatei. O encontrei no Festival de Inverno de Paranapiacaba, otimamente realizado pela Secretaria de Cultura da minha Santo André. Bem, eles até que fazem alguma coisa bem feita vez em quando...Cheguei na cidade histórica do Festival e encontrei o Fábio logo na entrada da cidade. Sempre bem humorado, de bem com a vida na medida do possível, me deu um abraço, contou-me de seus projetos musicais, do barato que era tocar rock na roll dos anos 50 com uma nova banda que estava acompanhando e riu da minha cara quando recusei um gole da sua lata de Skol. Recomendou-me que se a intenção era ir para o céu que esquecesse. “Seu lugar no inferno sempre foi cativo, brother...” Sorri. Em seguida aceitei o convite (Que jeito...) para tomar um chope escuro no Apiácas e por lá começamos nossa saga etílica. Falei que havia ido para assistir o show do Paulo Moura e a muito custo o convenci de ir comigo. Companhia agradável o cara. Nos animamos com a conversa e com 15 minutos de show do mestre, um educado segurança veio em nossa direção pedindo para que falássemos um pouco mais baixo porque estávamos atrapalhando o show. Bem... Não discutimos, mas também não ficamos para acompanhar o show. Um lugar onde dois amigos não podem conversar alegremente não pode ser um bom lugar.A idéia a seguir era procurar uma mostra de filmes que seria exibida. O problema é que nem eu nem ele sabíamos onde rolaria o raio da Mostra e nos perdemos pela cidade. Só pra variar, no meio do caminho encontramos um bar. E cá entre nós, não há no mundo lugar melhor para perdição do que um bar...Aquele, não era chique como os outros que abasteciam o Festival. Uma garagem improvisada, com mesinhas de lata e banquinhos de madeira meio moles. O dono era o pai, quem atendia era as filhas, a decoração era rústica, mas a acolhida foi a melhor que encontramos. Porque um bom bar é aquele que te deixa à vontade e não, aqueles, nojentamente limpos, high tech, cheio de frescuradas, onde você tem até receio de mijar. Mais uma para vocês...Enchemos a cara dionisiacamente numa conversa regada a rock and roll e gargalhada. A certa altura falávamos da vida. Fabio tirava onda das minhas bem sucedidas desventuras amorosas. Disse-me para aproveitar a fase porque quando viesse a seca, talvez só me sobrasse um balcão de bar para afogar minhas futuras dores de pequeno burguês mal amado. Dei risada e respondi que não era bem assim, que também tinha lá meus pesares e que vez por outra, perdia minhas noites de sono pensando no meio das pernas de alguma musa que insistia em não me convidar para tal idílio. Nessa hora, ele bebeu um gole de cerveja, olhou para mim e disse:“Meu caro amigo, você não sabe o que é arrebentar a cara no fundo de um poço vazio. Sei do que tu dizes. Mas você não sabe desse lodo, não. Você até esteve na borda, andou em volta do poço. Mas lá dentro tu não foi, cara. Um dia você vai! Aí a gente toma mais um porre e tu me conta...”Continuamos a cachaçada com a mesma alegria, até as 23:00h quando nos despedimos essa frase ficou na minha cabeça; “O gosto do fundo do poço”. Não encarei obviamente como uma praga do meu amigo, mas refleti sobre a coisa toda. Como é viver no fundo do poço das emoções? O que seria um poema escrito lá? E que tipo de música poderia ser ali composta senão o Blues? E quem poderia retratar esse universo soturno de maneira lúdica, sincera e criativa? Não sei (Nem quero saber...) se concluo corretamente a coisa, mas o nome que me veio à cabeça de maneira fulminante foi apenas um:Little Walter.Poderia começar a falar dele como todo mundo faz. Dizendo onde nasceu, de onde veio, como começou a carreira e blá. Blá, blá... Ou senão, afirmar sem nenhum medo que se trata do maior gaitista de todos os tempos, não por ter um leque de virtuosismos faraônicos que tem, muitos outros grandes nomes da gaita. É o maior de todos porque jamais ninguém criou ou improvisou como ele. Talvez sem Walter, nem existisse esses virtuosos aos quais me refiro. Enfim... Dane-se a forma correta de começar o texto. Prezo por isso sim, mas, esqueceram-se? Falamos de Blues. Aqui o universo é outro. As leis são outras e os senhores estão convidados ou não para freqüenta-lo ao longo dessas laudas. E é o seguinte... Eu até vou contar que ele nasceu em 1930, na Louisiana. Que com seis anos começou tocar gaita, com doze largou a escola e com catorze já acompanhava Sonny Boy Willianson e aos dezesseis, mudou-se para tocar nas ruas de Chicago em troca de gorjetas. E toda vez que se fala sobre um músico de Blues é a mesma coisa. Parece um padrão. Agora só falta-me falar que ele passou fome, viveu na miséria, que sofria preconceito, que não tomava comunhão aos domingos e nem tinha plano de saúde. Oras...Little Walter foi um dos maiores nomes da musica americana. Chegou no circuito dos grandes nomes do Blues através de Big Bill Bronzy. Daí acompanhou Menphis Slin, Tampa Red, Bukka White e outros. Em 1948 conhece Muddy Waters e aí começa a catarse. Na banda de Muddy, Walter colocou toda a sua capacidade de improviso, criatividade e foi um dos responsáveis pela eletrificação do som do Mestre. Pelo selo CHESS, lançaram discos maravilhosos que pontuariam toda uma geração de jovens músicos que surgiriam nos EUA. Alguns deles? Dois; Elvis Presley e Jhonny Cash. O novo andamento dado ás musicas, a aproximação com o Country, deram boas dicas para moldar o que mais tarde conheceríamos como Rock and Roll. O embrião está todo no seminal disco de 1950, “You’re Gonna Need My Help I Said“. Como diria meu amigo Fabio Brum; “Disco pra ouvir de joelho e com uma garrafa de Dimples...”Fez sucesso. Em 1952, Walter sai em carreira solo. Sua carreira decola, a popularidade vai a mil e começa a colher frutos. Sai em turnês pela Europa, passa a ser reconhecido por grandes nomes do mainstreman da época e em 1957 faz um show antológico no Teatro Apolo de Nova York, além de gravar um discaço com Otis Rush. Agora... De que adianta continuar aqui discorrendo todos os méritos de um homem que virou a musica de um país do avesso, com criatividade e um oceano de talento? Quem se importará?Afinal de contas, em 1958 ele teve sua carreira abreviada após morrer numa briga de boteco. Apanhou, tomou porrada até morrer porque quando ficava bêbado se tornava um mala insuportável. É impressionante...O fã de blues é mórbido.Pouco importa o que o cara fez, o que ele produziu, o quanto o desgraçado teve que trabalhar; O que vale é o quanto o peão sofreu! Não percebem que essa ótica, ela sim, é preconceituosa, clichê e babaca. Uma puta de uma sacanagem para se vender mitos, estórias mal contadas e idiotices que impedem que a luz seja focada para o que realmente interessa. Transforma em “derrotados”, homens que deixaram obras concisas, fortes e de qualidade. E de que derrota estamos falando? Lembra do começo desse texto?Não estamos falando do mundinho cartesiano, careta, oligárquico da classe-média nojenta que paga os tais formadores de opinião. Falamos de Blues. Aqui nesse mundo não interessa o que nego faz ou deixa de fazer quando toma um ou dois uísques a mais. Até porque ninguém pagou por nenhum desses tragos e cada um que segure sua onda. No universo que falo a vocês, importa o que o cara realiza como homem, como artista, como músico, como paixão. Aqui, vale a insana e deliciosa experiência de viver a vida de maneira intensa, como se todo dia fosse o último.Vale transar com aquela mulher, como se fosse a última a ser vista ao luar, ou ao sol do meio dia como disse o outro poeta. Porque nu ao sol do meio, só pra quem está pronto para o amor, disse ele também. Aqui não pode ser teórico, punheteiro do Baudelaire. Tem que viver na prática o que ele escreveu; “Encontrai encantos nas repugnâncias...”. Tirar poesia do lixo, arrancar do fígado uma música que não se quer compor, mas que se faz necessária. Chorar com uma nota de gaita, ou sorrir com um gole de cachaça vagabunda, sorvida como se a mesma fosse um Vinho montrachet. E talvez não seja preciso gastar tanta grana com uma garrafa de vinho para entender.Basta ter coração. Só entender que uma dor de amor é tão santa, quanto à prestação do carro que uma meia dúzia acha fundamental para vida. Parem um pouco. Ouçam o lirismo e o estado lúdico de uma nota da guitarra do Fabinho Brum e caso não estejam muito ocupados, procurem conhecer Little Walter. Mas por favor:Deixem o homem morto, em paz...

domingo, 1 de fevereiro de 2009

DOMINATRIX capitulo 12




ALINE E SUA NOITE DE ODE AOS MAUS POETAS; PORQUE DE VEZ EM QUANDO UM BOM RABISCO SUAVIZA MAIS QUE KEATS...



Colocou o garoto à prova.

Era uma festa promovida por aquelas Ong’s voltadas para questões raciais. Daquelas que pensam que no Brasil só existe Preto pobre. E no dia da Consciência Negra Aline levou Caio para a tal da festa. O garoto era esperto, sagaz e de cara se ligou que ali o único pobre discriminado era ele. Que só por mero acaso... Era branco.

Em meio a rap’s, grafites mal feitos, discursos recheados de clichê e mais uma overdose de zumbizíces dos palmares e da puta que pariu, Aline o levou para apresenta-lo a alguns amigos, diretores da tal Ong. E na primeira chance que teve o garoto Caio deixou bem claro o que pensava a respeito de tudo aquilo:

“Aí... Minha consciência não tem cor. Ela não é preta, branca, verde, azul nem amarela de bolinhas cor de rosa. Ela é minha consciência e pronto. E fazendo uso dela, aliás, to vendo que por aqui se bebe, se come tudo de melhor, mas fala-se bem pouco do real motivo que nos trouxe por aqui. Então é o seguinte; Vâmo encher a cara de uma vez, mudar o rumo dessa prosa e comportar-se como bêbados autênticos se comportam num rega-bofe como esse que estamos... Que acham?”

Silêncio sepulcral. Como sempre acontece, em ocasiões onde o assunto é válido e a discussão passa a ser pertinente e cabível, a bacanagem se faz de surda, finge que não acontece nada, alguém faz um outro comentário do tipo “Mas que calor anda fazendo em São Paulo esses dias...” e a merda segue como antes; Todo mundo bebe seu uísque sem prensar em porra nenhuma, ou melhor; Pensando na “Consciência” Negra... Mas que se foda tudo. Aline não queria saber também dessa discussão, não naquele momento. O que ela queria, teve...


Viu um garotão abusado, cheio de vida e personalidade se impor num ambiente que para ele era desconhecido e hostil, dizer o que pensava e sair rindo. Disse o que queria virou para o lado, olhou para ela e beijou-lhe a boca. Curtiram a festa toda e depois seguiram para o apartamento de Aline.

Ele tomou o cuidado de perguntar por Elisa e quando soube que era a noite dela passar com o pai fez um daqueles comentários infames que Aline adorava; “Então bora fazer mais uma Elisa eu e tu minha flor...” Ela riu da sua cara safada e enquanto colocava as chaves do carro sobre a mesa de centro da sala, deixou-se abraçar por trás. Sentiu um braço forte, vigoroso, viril, envolvendo-lhe a cintura, cheio de desejo e vontade.


Aconchegou-se mais naquele abraço e sentiu o pau do garoto latejando de tesão por dentro da calça. Virou-se e beijou-lhe com uma vontade que foi retribuída com força e intensidade. Tirou-lhe também a camisa e ele ajudou com calça. Aline lambeu aquele corpo com gosto e sua libido se intensificava a cada urro de prazer que o garoto proferia. Sentia-se fêmea, desejada, linda...

Caio Puxou-lhe a cabeça e beijou com força. Virou-a devolveu-lhe o banho de língua, com todo tesão que só os garotos apaixonados de 22 anos podem sentir. Encharcou-a de prazer e quando finalmente penetrou-a foi divino. O pau duro daquele garoto dentro de sua buceta era para a Aline o mais próximo da sagração. Entregou-se plena e feliz. Foi amada por toda aquela noite de uma de uma maneira que há muito tempo não acontecia...

O sol da manhã clareou aqueles dois copos nus. Aline acordou primeiro e viu o de Caio. Beijou-lhe as costas, levantou-se em direção à sala e ligou o cd player.

Ouviu Gal cantar que era uma fruta gogóia e naquele momento sentiu-se fatal...

DOMINATRIX capitulo 11:




ALINE E O PRIMEIRO RABISCO DE UM POEMA IMPREVISÍVEL...


Pensou em algumas milhares de formas de reencontrar Caio. Das mais elaboradas até as mais estupidamente óbvias. Como não conseguiu arrumar nenhuma forma edificante de dizer para o cara que estava louca para vê-lo resolveu simplificar a vida; Telefonou para o distinto...
“Oi...”
“Alô, Caio... É a Aline... Tudo bem?
“Uauuuuu... Não é que ela lembrou de mim...”
“Estranho você se surpreender. Afinal de contas o seu merchand era o de “homem inesquecível”...
“Isso com as outras... Uma mulher como você não se vê na fila do açougue né minha preta...”
Ela riu:
“Pois então, eu tava afins de dar umas voltas e sei lá... É que vai rolar uma exposição de uns trabalhos de um cara, um artista plástico que eu gosto, Yves Klein. Se você estiver afins, seria legal. Depois poderíamos dar um pulinho ali pelo Bar do Museu. Que acha?”
“Olhe minha flor... Eu não faço idéia do que possa ser, mas o convite de curtir essa lua de São Jorge a seu lado é irrecusável. Toparia até mesmo um filme de Mazaropi...”
“É um pouquinho diferente...”
Ele riu...
“Então vamo lá e tu me mostra o cabra...”
“Legal. Como fazemos?”
“Me dá o endereço minha flor. A gente se esbarra por lá”
“Ta legal. Anota...”
Marcaram para uma hora depois. Enquanto Aline caminhava até a porta da Oca, o local da exposição e o ponto de encontro combinado, pensava no que estava rolando. Não segurou o impulso de “correr atrás” de um lindo garoto de 22 anos que a fuzilou com olhos cheios de fogo e desejo em um coquetel. Não sabia mais de nada, aliás. Ouviu de uma amiga que aquele tipo de vida que ela estava levando não era possível. Que estava tudo errado, que uma mulher como ela não poderia ter aquele tipo e comportamento. Disse-lhe que estava descambando para uma clicheria sem fim, para um “canto da sereia”, torto e desafinado. Ela até que queria levar em conta as observações da amiga, mas ao ver Caio vindo a seu encontro, mandaram a razão às favas...
Viu um garotão cheio de vida, bonito, vivaz, trajando descontraídamente seu jeans e sua camiseta e decidiu que naquela noite queria apenas curtir. Abraçaram-se. Sentiu o a força daqueles braços, o pulsar forte de um coração acelerado de alegria e isso a fez muito bem. Quando ele beijou seu rosto, Aline segurou-se para não se derreter ali mesmo. Entraram para ver a exposição.
Ela o inseriu na obra do cara. Disse-lhe que Yves Klein morreu precocemente aos 34 anos em decorrência de um enfarte. Mesmo assim teve tempo para deixar uma obra sólida decidiu lançar mão da trajetória do corpo humano, convertendo-o em obra de arte em grandes telas e papéis. Ressaltou a Caio, que para ela, Klein tornou-se um dos mais importantes representantes do segmento e da maneira como o mesmo fugiu à regra na década de 1970 com suas manifestações radicais e singulares sobre o corpo.
O garoto até que achou bastante interessante. Principalmente quanto ao lance de fazer uso do corpo para manifestações artísticas e tudo mais. Ouviu-a com atenção, mas não resistiu a uma infame cantada:
“Bem que a gente podia fazer uma artezinha dessas com nossos corpinhos né? Que ce acha, Pretinha?”
“Deixa de ser sacaninha, menino...”
Ambos riram. Saíram de mãos dadas pela Oca e conversaram muito. Ele falou um pouco mais dele.
Surpreendeu Aline ao contar-lhe que mantinha um “casamento aberto” com uma produtora que há mais de um mês estava em Maceió. Que era totalmente desencanado do lance de ser possessivo e que o barato era curtir a vida sem amarras e regras. Que para ele, essa era a sua concepção de amor; Dar quem você ama, o direito de ser livre para viver as experiências que lhe fossem convenientes sem cobranças e caretices. Ela ouviu e até achou legal. Mas ficou intrigada... Imaginou-se numa situação daquelas e concluiu que jamais toparia uma parada daquelas. Que não haveria como. Mas foi impossível segurar uma alegria forte que sentiu ao perceber que uma situação cômoda se vislumbrava. Afinal de contas, o que ela tinha a perder além de no máximo uma ou outra noite de sono? Mas não foi aquela...
Ficaram no bar do museu até a alta madrugada. Despediram-se ali mesmo. Ficaram de se encontrar novamente, mas, o gosto de “quero mais” era latente em Aline. Entrou na Avenida paulista e viu o outdoor do Mc Donald’s.
Sem entender o porquê, começou a sorrir...